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15 de Novembro de 2016, 07h:55 - A | A

OPINIÃO /

Haverá função na literatura?

A arte não “deve ser”. Não tem compromisso. Não tem missão.

EDUARDO MAHON



Recentemente, fui a uma das unidades da Unemat. Tive uma grande surpresa em dividir a mesa expositora com o autor Ricardo Lísias, um homem bem preparado, escritor já reconhecido nacionalmente. Na fala que abriu o evento, Lísias abordou a “função contemporânea da literatura” como inclinada para o ativismo social.

O escritor sustenta que a função de escrever deve estar comprometida com a transformação da realidade social, denunciando abusos e contradições. E, por isso, o incômodo é a sensação central que busca com esse recorte literário que pretende. Cá com os meus botões, fiquei pensando: onde fui me meter?; como posso pensar tão diferente desse reconhecido escritor?; não fica muito ruim discordar frontalmente dele diante de uma plateia com quase trezentos estudantes de graduação, mestrado e doutorado em letras? De qualquer forma, estava ali e tinha que dizer alguma coisa.

Qual a função da arte? Antes de responder a essa questão, formulei uma que a precede – a arte, afinal de contas, deve ter uma função? Noutras palavras – é possível pautar um artista com determinado tema ou finalidade? Por certo que não.

Qualquer manifestação artística vem muito mais da necessidade íntima do artista em expressar-se do que de qualquer obrigação teleguiada. Justamente por isso é que o campo artístico é tão diverso como o próprio ser humano – cada qual faz o que entende interessante. Importa somente (nisso concordo integralmente com o escritor Ricardo Lísias) tocar intimamente o interlocutor. Se for pelo desconforto, tanto melhor.

A emoção é o elemento central de uma literatura de qualidade. Mas, em termos de teleologia, a arte “não deve” nada. A literatura “não deve” nada. Impor uma tarefa, uma função e uma medida de eficiência para a escrita é tolher todas as demais possibilidades de produção que, cá entre nós, enriquecem a humanidade.

Se o texto tem uma dimensão social que aponte um problema, ótimo. Se o livro buscar sensibilizar o leitor sobre uma disfunção contemporânea, tanto melhor. Em termos de literatura tomada como arte, importa se é bem escrito, se emociona de alguma forma o leitor e se tem potencial de ser reproduzido/citado por alguma razão. Nada mais, nada menos. De outro lado, o texto foi idílico, tudo certo. Se não passar de uma manifestação romântica, que bom.

Nem por isso, um livro será mais ou menos importante. A classificação não está fincada a um projeto social, a uma bandeira política, a qualquer cabresto predeterminado. De um mesmo autor, inclusive, pode surgir um livro-manifesto de forte apelo social, uma denúncia social bastante contundente e, de outro lado, uma rasgada prosa romântica sem que haja um escalonamento qualitativo entre as obras. Não consigo ver um Machado de Assis “menor” em O Alienista onde discute questões ontológicas do ser humano de um Machado de Assis “maior” em Esaú e Jacob no qual enfiou farpas na política nacional com os gêmeos que representavam ideias tão diferentes.

Por fim, a questão das representações. Meu nobre colega de exposição, premiado escritor Ricardo Lísias, entende que o autor não deve representar nenhum segmento diferente das origens dele mesmo. Noutras palavras: a escrita de um “branco” sobre a “comunidade negra” é uma espécie de furto de identidade de um “negro” que “deveria tratar” sobre os próprios problemas.

Fiquei pensando em Tarsila do Amaral, menina nascida em berço de ouro, que retratou a realidade da exploração industrial; em Portinari, filho de imigrantes italianos bem branquinhos, que pintou o drama dos retirantes nordestinos; em Di Cavalcanti, carioca da gema, pintor que estudou em Paris, que buscou inspiração na beleza negra brasileira; em Mário de Andrade, um pianista prodígio fluente no francês, que explorou elementos indígenas para mesclar estilos; em Guimarães Rosa, um sofisticado poliglota educado com refinamento numa família abastada, que foi garimpar a realidade dos sertões brasileiros... como se vê, não há “quotas” para a arte em suas temáticas e nem tampouco há vedações entre temas e autores.

A arte não “deve ser”. Não tem compromisso. Não tem missão. Não tem obrigações. Esse tempo em que a arte estava “a serviço de...” já passou. A literatura, portanto, não deve estar jungida a nenhuma missão social, amarras que podem muito bem sofrer manipulações das mais diversas naturezas. Nada contra quem tenha bandeiras e as empunhe com galhardia, fazendo da arte uma missão transformadora. É até inspiradora essa cruzada. Admirável também.

O que não se pode é admitir um “escalonamento artístico” do bom e do mau, do certo e do errado, do que se deve e do que não se deve escrever para contribuir com a literatura contemporânea. De outro lado, é até risível a desqualificação de uma obra ou tema pela origem do autor ou a situação social do mesmo. Que eu saiba, um livro não se lê pela biografia do autor. É justamente o contrário.

Eduardo Mahon é escritor, advogado.

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