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16 de Novembro de 2014, 08h:34 - A | A

OPINIÃO /

Barros de Manoel

Manoel de Barros, escritor do silêncio em sílabas coloridas por uma paisagem natural.

AIRTON REIS



“Poemas concebidos sem pecado”, assim na Terra como no Céu. “A face imóvel”, em letras margeadas além de um papel. “Poesias”, exaltadas em mais de um dossel. “Compêndio para o uso dos pássaros”, desfolhado por mais de uma mão. “Gramática expositiva do chão”, além de uma edição. “Arranjos para Assobio”, em bis e em refrão. “Livro de pré-coisas”, margeado pela perfeição. 

“O guardador das águas”, emendadas num indivisível Pantanal. “Livro sobre o nada”, em mais de um tempo verbal. “Retrato do artista enquanto coisa”, criado a imagem e semelhança divinal. “Ensaios fotográficos”, em tempo real. “Exercícios de ser criança”, em prisma gramatical. “Encantador de palavras”, em sonoridade ambiental. “O fazedor de amanhecer”, substantivo e plural. 

“Tratado geral das grandezas do infinito”, mais do que circunstancial. “Águas”, em manancial. “Cantigas, Escritos, Memórias e Poemas” de um “Menino do Mato”. Fonte literária em mais de regato banhado em ribeirão. Portal da liberdade de expressão. Modernista em mais de uma ocasião. Lição de humildade. Portal da eternidade. Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, 19 de dezembro de 1916 - Campo Grande, 13 de novembro de 2014). 

Barros de Manoel, despedida em acenos laureados pela saudade. Barros de Manoel, inventor teórico em ângulos geométricos da palavra. Sensibilidade do corpo e inteligência do espírito criador: “Poesia não é para compreender, mas para incorporar”. Quebra do paralelismo sintético e semântico. Sentidos esboçados pela percepção de humanidade. Vontade permanente da verdade em mais de uma aurora imaginada além do materialismo imediato. 

Concreto e abstrato. Devaneios espelhados em razão. Fábulas sem fingimento e sem personagens mascaradas pela ficção. Invento de um inventor de organismos em frases inacabadas. Fingimento aproximado do real. “Há histórias tão verdadeiras que às vezes parecem falsas”. Mago em combinações reveladas ao leitor. Ruptura dos limites da razão: “Fazer cavalo verde, por exemplo”. 

Manoel de Barros, escritor do silêncio em sílabas coloridas por uma paisagem natural. “Escrever nem uma coisa e nem outra – a fim de dizer todas, ou, pelo menos nenhumas. Assim, ao poeta faz bem desexplicar – tanto que escurecer acende os vaga-lumes”. 

“Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra. Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas. Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidade de pássaros. Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidade de sapo. Daqui vem que todos os poetas podem ter a qualidade de árvore. Daqui vem que todos os poetas podem arborizar os pássaros. 

Daqui vem que todos os poetas podem humanizar as águas. 

Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo com suas metáforas. Que os poetas podem ser pré-coisas, pré-vermes, podem ser pré-musgos. Daqui vem que os poetas podem aprender o mundo sem conceitos...”: Afirmativas que prosseguem em mais de uma obra poética publicada. Manoel de Barros, na Paz Eterna da sua nova Morada Azul Anil. 

Condolências aos familiares deste que foi e continuará sendo o maior poeta pantaneiro do Brasil. 

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