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06 de Outubro de 2026

06 de Outubro de 2026, 18h:00 - A | A

ENTREVISTA / EMPOBRECE O DEBATE

Procuradora da AL: Polarização política enfraquece combate à violência contra a mulher

Procuradora da ALMT critica a ideologização do combate ao feminicídio e aponta que 70% das vítimas em MT são mortas após decidirem terminar o relacionamento

RepórterMT

Francielle Claudino Brustolin é procuradora da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) e sub-procuradora da Procuradoria Especial da Mulher da ALMT

Francielle Claudino Brustolin é procuradora da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) e sub-procuradora da Procuradoria Especial da Mulher da ALMT

ANA CRISTINA VIEIRA
DO REPÓRTERMT



Falas machistas e a tentativa de transformar o combate à violência contra a mulher em uma disputa entre direita e esquerda enfraquecem a pauta e acabam favorecendo justamente a continuidade da violência. A avaliação é da procuradora da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) e subprocuradora da Procuradoria Especial da Mulher, Francielle Claudino Brustolin.

Em entrevista ao , Francielle afirmou que discursos machistas, inclusive quando associados a grupos políticos, retiram espaço de discussões mais profundas sobre as causas da violência contra as mulheres e afastam diferentes setores da sociedade do debate.

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“A primeira coisa que eu entendo é que é um desserviço, principalmente quando a gente fala assim: falas machistas que são ligadas à própria direita. É um desserviço para a própria direita, que poderia estar na pauta colocando o olhar diferente sobre a pauta, mas com o conteúdo relevante. Então perde muito”, afirmou.

Para a subprocuradora, quanto maior a polarização, maior o risco de o enfrentamento à violência contra a mulher ser identificado exclusivamente com um campo político.

“Se quer polarizar, quanto mais se polariza, mais esquerdista fica a pauta e menos real, menos orgânica, que capte todas as visões. Então isso é um desserviço absurdo”, acrescentou.

Francielle disse ainda que a disputa ideológica acaba desviando a atenção de quem realmente se beneficia do enfraquecimento das políticas de proteção.

“Quando eu ouço, eu fico pensando: quem que está ganhando com isso, né? Quem está ganhando é justamente a violência, o aumento da violência”, declarou.

Segundo ela, instrumentos como a Lei Maria da Penha são mecanismos criados para tornar efetivas garantias já previstas na Constituição Federal, entre elas a liberdade e a autonomia das mulheres.

“Quando a gente teve a promulgação da nossa Constituição de 88, a gente viu os direitos sociais virem à tona. Então é uma Constituição recheada de direitos, mas, para você acessar esse direito na prática, a gente precisa de vários instrumentos”, explicou.

A subprocuradora citou como exemplo o direito da mulher de trabalhar, administrar o próprio dinheiro e tomar decisões sem sofrer controle por parte do companheiro.

“Quando uma mulher se posiciona no mercado de trabalho, por exemplo, ela tem que ter direito de ter acesso ao seu dinheiro, de ter acesso aos bens que ela tem vontade, sem ter um homem machista do lado querendo controlá-la. Isso é uma questão de respeito e de liberdade do ser humano”, disse.

Francielle destacou que a defesa da autonomia feminina não significa impor um modelo de vida às mulheres, mas garantir que cada uma possa escolher livremente entre permanecer em casa, ingressar no mercado de trabalho ou conciliar diferentes atividades.

“Não é sobre pauta política, é sobre a necessidade da mulher ser reconhecida com sua liberdade de ser dona de casa ou de ser uma mulher que vai para o mercado de trabalho e que consegue, nas balanças da vida, dar conta de todas as coisas que ela quer. Então ela tem que ter esse direito”, pontuou.

Ao falar especificamente sobre Mato Grosso, a subprocuradora disse que levantamentos realizados no Estado derrubam a ideia de que o feminicídio estaria restrito a mulheres financeiramente dependentes ou em situação de extrema vulnerabilidade.

Segundo Francielle, mais de 70% das mulheres assassinadas em Mato Grosso foram mortas após decidirem terminar o relacionamento. Ela acrescentou que a maioria já possuía independência financeira em relação ao agressor.

“As mulheres são mortas no Mato Grosso, mais de 70%, porque elas tomaram uma decisão: uma decisão de terminar o relacionamento. E a maioria delas, elas são mortas já sendo livres financeiramente daquele homem. Ou seja, são mulheres que estão no mercado de trabalho, que estão sustentando sua própria casa e que decidem tomar uma decisão de romper no relacionamento. O retrato de Mato Grosso é isso, pelos estudos que são feitos”, afirmou.

Para Francielle, os números reforçam a necessidade de legislações e políticas específicas de proteção e mostram que o enfrentamento à violência precisa ultrapassar divisões partidárias.

“Quando você traz uma pauta ideológica para isso é muito ruim, porque todas perdem, seja mulher de direita ou de esquerda, de centro, do que for”, concluiu.

Confira o vídeo:

Confira a entrevista completa:

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